Ele é Soberano e está no Comando

Quando você pesquisa a palavra “controle” no Google, uma das primeiras imagens que aparece é o controle remoto sem fio do PlayStation 5, o videogame da Sony.
O dicionário Webster define controle como “governar”. Se você está controlando um personagem de videogame, esse personagem só fará o que você mandar. Não sei o que as crianças jogam hoje em dia, mas digamos que você esteja jogando Mario Bros.: Mario não marcará pontos nem fará nada por conta própria, apenas o que você controlar que ele faça.
Muitos hoje acreditam na ideia de que Deus está no controle. Para alguns isso significa que Deus é todo-poderoso e soberano. Esse conceito está correto: Deus é o Criador todo-poderoso e soberano do universo. Mas muitos confundem essa ideia de “Deus no controle” com a noção de que tudo o que acontece é um movimento de Deus — como se a vida na Terra fosse um tabuleiro de xadrez e cada acontecimento ocorresse porque Deus moveu as peças.
Quem acredita que Deus, e somente Deus, faz as peças se moverem muitas vezes também acredita que a morte de um filho, ou um acidente fatal que levou entes queridos, foi causada — ou ao menos poderia ter sido evitada — por Deus.
Deus, contudo, não causa acidentes de carro nem qualquer mal no mundo. O apóstolo Tiago diz que só vêm de Deus as coisas boas. Precisamos lembrar que há outras forças em jogo no universo. Gregory Boyd, em seu livro God at War, nos lembra que existem outras forças atuando no cosmos. O diabo está à solta no mundo; o próprio Jesus disse que o diabo vem para roubar, matar e destruir. Por isso não devemos atribuir precipitadamente a Deus todo mal que nos atinge.
Outros entendem isso, mas acreditam que, embora Deus não tenha feito o mal, certamente poderia tê-lo evitado — e, se não evitou, permitiu que acontecesse. Se permitiu, então deve ser da vontade de Deus que aquele mal ocorresse. Essa noção também está errada e tem afastado muitas pessoas de um Deus amoroso.
Boyd aponta que Deus não quis nem permitiu que Adão comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal — na verdade, Ele proibiu. Mesmo assim, não os impediu de desobedecer. Deus também não quis nem permitiu que Caim matasse Abel; em Gênesis 4:7, Deus adverte Caim a não ferir o irmão. Ainda assim, Caim escolheu tirar a vida de Abel, e Deus não o impediu.
De modo geral, vemos na Bíblia que, como regra, Deus normalmente não impede o homem de praticar o mal. A história confirma isso. Se Deus impedisse todo mal no mundo, não teríamos tido guerras que ceifaram a vida de tantos homens bons.
Não, Deus não impede o mal de acontecer — Ele o permite. Por quê? Porque não criou o mundo para Si. Ele não precisa do mundo. Criou o mundo para Adão e lhe deu domínio e governo sobre ele. Adão escolheu o mal em vez do bem. Deus, como bom Pai, respeitou a escolha de Adão. Quantos de vocês dariam uma casa ao filho recém-casado e apareceriam no dia seguinte para dizer como administrá-la?
No NT vemos Deus permitindo a decapitação de João Batista. Nem o Pai nem Jesus intervieram para impedir a morte de João. Poderiam ter feito, mas não fizeram. Temos uma pista disso em João 7:30, quando diz que queriam prender Jesus, mas não puderam pôr as mãos nele porque “ainda não tinha chegado a sua hora”. Isso fala da vontade de Deus (thelema) e do plano soberano de Deus (boulema) — duas coisas diferentes, sobre as quais há bons artigos se você quiser aprofundar.
Quando lemos o Livro dos Mártires, de Foxe, isso fica ainda mais claro. Centenas e milhares de cristãos sofreram perseguição, torturas horríveis e mortes terríveis por causa da fé em Cristo. Deus, que poderia ter impedido tudo, não o fez. Por quê? Porque Ele não está no controle das obras dos homens maus, nem do diabo e seus demônios. Deus não controla o mal que Adão deixou entrar no mundo, mas o mantém, como John Piper diz, “atado com uma coleira”. Isso não é controle — são limites. Há fronteiras estabelecidas por Deus, e elas apontam para a Sua soberania.
Na China e em outros países comunistas, cristãos ainda são perseguidos e torturados até hoje. Você não ouve muito disso nas redes sociais porque o governo controla a internet nesses países. Ouvi de testemunhas oculares sobre crianças torturadas diante das mães para fazê-las renunciar a Cristo — pais que viram os filhos morrerem por se recusarem a negar a fé.
Sejamos honestos: talvez nenhum de nós resistiria a isso. Talvez o Espírito Santo nos capacite se um dia enfrentarmos tal provação. Mas o ponto é: Deus poderia ter impedido, mas não impediu. Deus não impedirá o mal enquanto ele não afetar o Seu boulema — o Seu plano soberano. Herodes Arquelau queria matar o menino Jesus, mas Deus enviou um anjo para impedir — porque precisava que Jesus vivesse para cumprir Seu plano. Da mesma forma, Deus não impediu Herodes Antipas de matar João Batista, porque o plano de Deus para João já havia sido cumplido. Na terra foi tragédia; no céu, com certeza foi recebido com honra ao entrar pelos portões da eternidade.
Da morte de Abel ao Holocausto, Deus poderia ter impedido tudo — mas não impediu. Poderia ter dado uma doença fatal ao bebê Hitler, ou impedido o seu nascimento. Deus, sendo onipotente e onisciente, poderia ter decidido não criar o diabo. O mundo seria melhor sem ele, não acha? Mesmo assim, sabendo que Lúcifer se tornaria o diabo, Deus o criou. Por quê?
Acredito que pela mesma razão pela qual criou você e eu: embora não sejamos o diabo, certamente praticamos o mal em algum momento. Quem nunca mentiu ou roubou um biscoito da avó? Uns mataram, outros roubaram — achamos que há diferença, mas, embora as consequências variem, a essência é a mesma: mal.
Virá o dia em que Deus eliminará o mal de uma vez por todas. Quando Jesus voltar para a Sua noiva, acabará com a morte e com o mal. Até lá, lidamos com dor e sofrimento — o próprio Jesus disse que teríamos aflições nesta vida.
Para concluir — escrevi muito mais do que pretendia quando sentei com meu café esta manhã — quero deixar esta ideia: Soberania e controle são conceitos muito diferentes. Deus é todo-poderoso, é soberano, mas não está no controle. Para ilustrar, pense na Rainha Elizabeth: além de rainha da Inglaterra, é rainha de países como o Canadá. Ela é soberana sobre o Canadá, mas não governa o país no dia a dia. Para isso existem o primeiro-ministro e autoridades locais, eleitos pelo povo. A rainha, porém, sendo soberana, tem poder de intervir a qualquer momento. Sua imagem está gravada na moeda canadense como lembrete diário da soberania dela sobre a nação. Ainda assim, o poder de fazer o bem ou o mal está nas mãos de cada cidadão.
Assim é com Deus: Ele não controla diariamente tudo o que acontece em nossas vidas. Não causa nem permite (no sentido de querer) o mal que nos atinge — o mal acontece apesar da Sua vontade boa e perfeita para nós.
Não é Deus quem faz uma criança nascer com deficiência física, ou outra morrer prematuramente. Não é Deus quem causa acidente de carro por motorista bêbado, ou morte pelas mãos de alguém violento. Tudo isso é consequência do pecado original de Adão e do mau uso do livre-arbítrio.
Poderia Ele impedir? Sim, pode — e tenho certeza de que muitas vezes impede. Se não fossem as Suas misericórdias, já teríamos sido destruídos. O mundo ainda subsiste e o sol brilha a cada manhã somente por causa do Seu amor e misericórdia.
Deus é, de fato, SOBERANO, mas não está no controle — Ele está no COMANDO, o que é muito diferente. Deus em comando significa que Ele nos dá direções diárias para vivermos no centro da Sua vontade boa, perfeita e agradável; quem se submete e obedece será abençoado e prosperará — promessa que Deus fez em toda a Escritura.
Isso não significa que coisas ruins não acontecerão a pessoas boas nesta vida, mas significa que quem escolhe amá-Lo será amado por Ele aqui e, um dia, estará completamente livre do mal, da dor e das lágrimas na vida eterna, com Ele, no céu.
Então permaneçam firmes, irmãos — especialmente vocês que sofreram grande dor. Saibam: Deus não causou nem permitiu (querendo) a sua dor. Ela aconteceu apesar da bondade e do amor dEle por vocês. Se escolherem não ser dominados pela dor e continuarem buscando a Deus como Pai, encontrarão conforto em Seus braços amorosos. Deus impedirá o mal se esse mal impedir que vocês cumpram o Seu bom e perfeito boulema para a vida de vocês. Se não impedir determinado mal, dará força para suportá-lo e fará dele a maior força de vocês.
Deus não impediu que Jesus passasse pela cruz, embora Jesus pedisse para ser livrado dela. Mesmo assim, a cruz que Jesus sofreu tornou-se a nossa salvação. Não rejeitem as cruzes que o Pai permite que carreguem — elas podem tornar-se a maior força de vocês.
Honra e Glória